Tensão pré campeonato: uma noite de pesadelos

07 maio



Era a noite anterior ao campeonato para o qual me preparei durante meses: acordei cedo para treinar, repeti aquela coreografia mil vezes, parei até de comer besteiras. Eu sabia tudo de cor, estava pronta. No entanto, se eu havia feito tudo certo, por que não estava confiante? Por que essa agonia prendia minha garganta e não me deixava dormir? Eu já havia me apresentado diversas vezes antes, mas nunca havia participado de um sul-americano, talvez por isso estivesse tão nervosa. Rolei na cama por horas até conseguir pegar no sono.

Durante o pouco tempo em que cochilei tive um pesadelo: eu estava no meio da apresentação e todos riam de mim, eu não entendia o que estava acontecendo, até que percebi que estava sem patins e tinha pés de pato, o que me fazia dançar de maneira muito esquisita. As pessoas começavam a levantar da arquibancada para ir embora. Olhei para os jurados e eles estavam apáticos, nem se mexiam, cheguei mais perto e notei que eles eram bonecos de madeira, sem mãos e sem boca, e nessa hora a música que tocava ficava macabra e tudo escurecia assustadoramente.

Acordei suando, com o coração acelerado e a boca seca. "Será que estou ficando louca?". Percebi que ainda estava escuro, olhei para o relógio ao lado da cama e vi que ainda eram duas da manhã. Eu precisava me acalmar, então resolvi beber um pouco de água. Andei devagar pelo corredor para não acordar ninguém e quando cheguei à cozinha percebi que estava tudo muito calmo (era boa a sensação de estar protegida em casa) e a luz azul da lua que entrava pela janela tornava o lugar ainda mais aconchegante. Enchi meu copo e bebi a água ali mesmo, com a porta da geladeira aberta.

Bati a porta da geladeira rápido demais, fazendo um barulhão, então congelei por uns minutos com a mão ainda no puxador para ouvir se havia acordado alguém da casa. "Ufa, tudo silêncio". Foi nessa hora, parada ali, que percebi que aquela foto antiga ainda estava presa na porta do congelador por um imã em forma de coração. Vovó sorria para a garotinha de 6 anos que patinava desajeitada. Eu estava sem dente na foto! Foi um dia muito legal aquele, meu primeiro campeonato!

De repente lembrei do que ela havia me dito antes que eu entrasse na quadra: "O prazer de fazer o que se ama é muito maior do que o resultado de qualquer campeonato. Então não só patine, divirta-se!". Fazia 4 anos que minha vozinha havia falecido. Sorri de saudade. Lembrar daquilo acabou com toda a minha ansiedade. Voltei para o quarto decidida a seguir o conselho dela e dormi que nem um bebê. No dia seguinte, fiquei em primeiro lugar no pódio.


Veja também

2 comentários

  1. Que história fantástica! Eu também tive muitos pesadelos com provas, em que chegava atrasada, ou esquecia-me dos patins ou fatos; mas nunca na noite que antecipava um campeonato.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ahhhhh que fofa! Fiquei super feliz que tenha gostado da história! Nossa, seus pesadelos eram tensos, hein? Imagina ir para uma apresentação e esquecer a roupa ou os patins??? Ainda bem que eram só sonhos!Obrigada pelo comentário, linda! :)

      Excluir

Obrigada pelo seu comentário! ♥

Patinadora Pop Store

Youtube